sábado, 5 de setembro de 2020

A Excelência Inesquecível de Persépolis

Há cerca de sete anos, na reta final da minha formação em Produção Audiovisual na ULBRA, optei por fazer uma disciplina da faculdade de Jornalismo. Em determinado momento, a graphic novel Persépolis, de Marjani Satrapi, foi o centro de um dos trabalhos propostos pela professora Gabriela Almeida (uma das melhores professoras que já tive, vale dizer). O trabalho consistia em escrever uma resenha sobre a obra de Satrapi, algo que fiz com gosto tendo em vista sua qualidade excepcional. Agora que tenho o Caixa de Sucata para falar sobre qualquer assunto, decidi revisitar o texto para ver se eu poderia reaproveita-lo de alguma forma. Depois de modificar certos detalhes e atualizar o que eu havia escrito para ficar um pouco mais com a cara do Thomás de 2020, resolvi publicá-lo aqui.

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As primeiras imagens que aparecem nos quadrinhos de Persépolis é a de um grupo de meninas iranianas vestindo o véu preto comum na cultura do país. Nisso, a narradora, protagonista e autora Marjane Satrapi diz que não podemos vê-la entre aquelas meninas, já que ela está sentada em um canto fora do quadro. Mas mesmo que pudéssemos vê-la, ainda assim seria difícil identifica-la, já que todas as meninas parecem idênticas com o véu em volta de suas cabeças. É uma imagem interessante por mostrar não só um pouco dos costumes conservadores do país, mas também como isso parece tirar a personalidade de seus habitantes, que passam por uma série de dificuldades em meio a um caos social pontuado por guerras. Um desses habitantes é a própria Marjane Satrapi, que conta no decorrer da graphic novel uma história pessoal e de grande peso emocional.

Partindo de 1980, quando Satrapi tinha 10 anos e a Revolução Islâmica estava dando seus primeiros passos, Persépolis inicia sua história com um visual bastante simples e até mesmo infantil, o que combina perfeitamente com a visão de mundo que a autora tinha na época (o modo como ela descreve e ilustra certas passagens, por exemplo, mostra como ela imaginava certas coisas quando criança). E é interessante notar como a narrativa vai naturalmente amadurecendo junto com sua protagonista, o que mostra a inteligência de Satrapi com relação ao modo como conta sua história nos quadrinhos.

Em Persépolis, Marjane Satrapi conta as dificuldades que ela e sua família passaram nos primeiros anos de uma revolução que fez o país regredir 50 anos, como o pai da autora diz em determinado momento. Uma parte dessas dificuldades ocorria muito por conta do forte gênio da própria Satrapi, cujo modo de pensar e agir era totalmente oposto ao das grandes autoridades do país e das escolas por onde passou, o que frequentemente fazia ela ser expulsa das instituições. E tendo em vista a rigidez do conservadorismo no Irã, é compreensível que os pais de Satrapi tenham resolvido manda-la para Europa para que ela pudesse finalizar seus estudos. Isso não deixa de apontar a sorte e o privilégio da autora, que teve uma família com condições de ajudá-la a percorrer esse caminho, mas ainda é triste ver como o contexto de seu país a fez precisar optar por tal saída (e a imagem que traz o pai de Satrapi carregando nos braços a mãe dela desmaiada no aeroporto é uma das mais marcantes e tristes da graphic novel).

A passagem de Satrapi pela Europa, aliás, é interessante pelo impacto que tem em sua vida. Na Áustria, a autora tem muito da liberdade que lhe faltava em sua terra-natal, tendo a oportunidade de fazer coisas que geralmente não poderia fazer, como seguir um estilo “punk” e ter vários relacionamentos. Claro que nem tudo são flores durante essa passagem. Mesmo vivenciando um ambiente mais livre, Satrapi ainda vive experiências que a jogam no fundo do poço. Experiências estas que não deixam de contribuir para o desenvolvimento da força da protagonista quando adulta.

O impacto de todas essas vivências e ideias que moldam Marjani Satrapi pode ser visto no momento em que ela reencontra velhas amigas no Irã. Quando Satrapi compartilha algumas de suas histórias, o mal julgamento que essas amigas fazem dela não deixa de ser lógico tendo em vista que elas passaram a vida toda em seu país de origem, se adequando às regras que lhes foram impostas. Esse momento da história é um dos principais exemplos do choque de costumes que vemos ao longo das páginas, mostrando como esses aspectos da sociedade podem gerar visões diferentes e se tornar quase que parte do DNA das pessoas, sejam eles opressivos ou não.

Persépolis é, essencialmente, um relato tocante de alguém que passou por cima de muitos obstáculos para formar sua vida sem abrir mão de quem é como ser humano. Uma graphic novel essencial não só por sua temática sociopolítica, que aborda muito do que há de complexo no mundo em que vivemos, mas também pela empatia que move sua narrativa.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Batman: Ano Um - Antes Tarde do que Nunca

Quando a carteira permite, eu sou alguém que gosta demais de comprar filmes, livros e histórias em quadrinhos, que acabam se empilhando nas estantes do meu quarto. No entanto, eu não sou uma pessoa das mais organizadas, de forma que frequentemente acontece de eu comprar novos itens mesmo sem ter conferido tudo o que já tenho. E é claro que levo um bom tempo para consumir algumas dessas coisas. Batman: Ano Um foi uma delas, mas corrigi isso ontem à noite.

Como é indicado pelo título, a graphic novel que tem roteiro de Frank Miller e arte de David Mazzuchelli foca no primeiro ano de Bruce Wayne como Batman. Mas a história mostra ser menos sobre como o ricaço de Gotham City se tornou o super-herói e mais sobre o porquê. Assim, é notável a profundidade dada aos dilemas tanto de Wayne quanto de outros personagens, como James Gordon, que é praticamente um coprotagonista dentro da narrativa, com a história se dividindo distintamente entre as cruzadas dele como policial e de Batman como vigilante, mostrando a aliança entre eles se formar de maneira lógica e orgânica.

Além disso, por se tratar dos primeiros dias do Batman, é interessante e até natural ver o personagem falhar mesmo quando enfrenta criminosos considerados peixes pequenos, algo que ajuda a humanizar uma figura que nos acostumamos a ver como um herói grandioso e implacável. Mas particularmente falando, o que mais chamou a minha atenção durante a leitura foi o retrato de Gotham City e o quanto um indivíduo como Batman pareceu mais que necessário naquele lugar. Afinal, a cidade parece um verdadeiro inferno, inspirando apenas medo em seus habitantes ao ser consumida pela violência e pela corrupção tanto por parte de criminosos quanto da própria polícia, detalhes refletidos no aspecto sombrio que ela ganha nas artes de cada página. Com isso, Batman surge praticamente como um senso de justiça, ideia compartilhada por personagens como o promotor Harvey Dent (que aqui ainda não era seu famoso alter ego Duas Caras) e, eventualmente, por James Gordon.

Uma coisa que acho que pode ser dita sobre Batman: Ano Um é que se trata de uma obra que pode ser um verdadeiro deleite não só para fãs do clássico super-herói, mas também para qualquer um que goste de uma história bem contada. O trabalho de Frank Miller e David Mazzuchelli é admirável, e apenas lamento ter levado tanto tempo para lê-lo.

domingo, 30 de agosto de 2020

Somari ou (Como Percebi que uma Parte da Minha Infância Era uma Mentira)

Você lembra do primeiro jogo de videogame que jogou na vida?

Alguns talvez tenham essa resposta na ponta da língua. Já outros certamente terão um pouco mais de trabalho para resgatar essa memória (caso ainda tenham ela guardada na cabeça). Ao me deparar com essa questão dias atrás enquanto checava a timeline do Twitter, fiz quase um retorno a infância para chegar à resposta.

O primeiro contato que tive com um videogame foi aos 4 anos de idade, quando me deram um Dinavision. Para quem não sabe, este console nada mais era do que um clone do Nintendo Entertainment System e que rodava normalmente as fitas do videogame original. E depois de muito pensar nos jogos que me divertiram ao longo do tempo em que tive o Dinavision, a conclusão a qual cheguei sobre o primeiro que joguei foi relativamente óbvia: o jogo do Mario. Ao menos era assim que eu me referia ao clássico Super Mario Bros.

Questão respondida e jornada de retorno a infância encerrada, certo? Errado!

Afinal, quando pesquisei sobre Super Mario Bros., me deparei com imagens que nada lembravam o jogo que eu tinha na cabeça. Eu recordava de uma obra cuja coloração era diferente, com tons mais escuros em alguns detalhes, ao passo que as fases não tinham os canos que geralmente fazem parte do universo de Mario Bros. Aliás, até o personagem parecia ter uma definição melhor nessas lembranças.

Mas se Super Mario Bros. não foi o jogo do Mario que eu joguei quando criança, então qual terá sido?

E foi então que, em um universo de games derivados e pirataria, eu encontrei o Somari.

Não sei se isso é possível com consoles mais recentes, mas até uns anos atrás era comum vermos jogos terem alguns de seus detalhes alterados, a fim de serem vendidos como novidades. É algo que vi acontecer principalmente com jogos de futebol, que “atualizavam” um título específico para incluir os novos jogadores de cada time. Somari segue mais ou menos essa lógica. Trata-se de uma versão não-licenciada (ou seja, pirata) do clássico Sonic, mas que coloca Mario no lugar do porco-espinho mais famoso dos videogames. Segundo a nossa querida Wikipédia, o jogo fez muito sucesso na Ásia antes de ser importado para outras regiões. E em algum momento um de seus exemplares acabou indo parar nas mãos de um menino de 4 anos no sul do Brasil.

Ao perceber que Somari foi não só o “jogo do Mario” que tanto joguei, mas também o primeiro de todos, tive um daqueles pequenos choques de realidade. Por um lado, é ótimo ver que eu não estava imaginando coisas e que as imagens que eu tinha na memória fazem sentido. Por outro, é estranho notar que nunca joguei Super Mario Bros., apesar de achar que passei a infância toda me divertindo graças a ele. Uma mentira até divertida agora que paro para pensar.

Mas nunca é tarde para apreciar um bom clássico, certo?

sábado, 29 de agosto de 2020

O que é o Caixa de Sucata?

 

Olá!

Seja bem-vindo ao Caixa de Sucata. Caso você não me conheça, meu nome é Thomás, mas se quiser pode me chamar de Toco. Desde 2009 eu tenho um blog chamado Linguagem Cinéfila, onde escrevo críticas, comentários e mais algumas coisinhas sobre cinema. A arte cinematográfica é a grande paixão que tenho, algo que já me rendeu conquistas pessoais marcantes como a formação em Produção Audiovisual e o reconhecimento entre meus colegas de crítica (faço parte da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul desde 2015). Sempre tive prazer de escrever sobre cinema, mesmo que no fim das contas isso tenha se tornado um hobby e não uma forma de ganhar a vida como desejei por um bom tempo.

Mas às vezes tenho vontade de escrever sobre outros assuntos. E é aí que entra o Caixa de Sucata. Eu poderia escrever essas coisas no Facebook ou no Instagram? Claro, mas é fácil ver as palavras se perderem nas redes sociais em meio a tantas postagens. Um blog me pareceu uma opção mais adequada, seja por ser algo um pouco mais pessoal ou por funcionar melhor como um arquivo. E sobre o que pretendo escrever? Bem, na verdade a ideia é escrever sobre qualquer coisa. Futebol (sou torcedor de carteirinha do Internacional), livros, games, histórias pessoais, epifanias, besteiras... Essencialmente, este será o espaço que tentarei usar como uma caixa para guardar as coisas que tenho dentro da cabeça.

Não sei se isso será interessante para outras pessoas. Mas de qualquer forma, em um nível puramente pessoal, acho que ter onde despejar as ideias pode ser bom. Espero que você goste e, claro, não deixe de acessar também o Linguagem Cinéfila, já que pretendo dedicar o mesmo cuidado aos dois blogs.

Enfim, sigam-me os bons!