sexta-feira, 26 de março de 2021

A Primeira Vez no Beira-Rio

Houve um momento em que olhei para o meu pai e disse a ele que eu seria gremista.

O ano era 2002. Nós morávamos em Bento Gonçalves, o Brasil havia acabado de conquistar o pentacampeonato mundial e o Inter lutava para escapar do rebaixamento no Campeonato Brasileiro, enquanto que o Grêmio vivia seus bons dias sob o comando de Tite (naquele ano, foram semifinalistas tanto no Brasileirão quanto na Libertadores). Neste contexto, no qual eu mal acompanhava futebol, alguns amigos da escola diziam que o Grêmio era melhor e que o Inter era horrível, o que admito ter feito um pouco a minha cabeça. Porém, quando falei ao meu pai que eu iria ser gremista ele logo me cortou. Mas não me importei nenhum pouco de continuar sendo colorado, até porque eu já estava mais do que acostumado a me identificar dessa forma.

Depois que voltamos a morar em Porto Alegre, algo que ocorreu no final daquele ano, surgiu a ideia de ir ao Beira-Rio assistir a um jogo, até porque eu havia começado a gostar muito de futebol (coloco a culpa disso nas famosas pedaladas de Robinho). Não lembro se a ideia partiu de mim ou de meu pai, mas ela certamente serviria para fincar meus pés no lado vermelho da Força. Tentando fazer a ideia sair do papel, sugeri que fossemos a um Gre-Nal, mas meu pai colocou uma condição superprotetora: a gente deveria ir num jogo que não envolvesse rivalidade. Ele achava que jogos assim tinham mais chances de rolar violência entre torcidas e não queria me ver nesse tipo de situação. Convenhamos, a preocupação dele não era descabida (mesmo hoje ela não seria).

Com isso em mente, eu vi passar na televisão o comercial do jogo do Inter contra o Remo (do Pará), que se enfrentariam pela segunda fase da Copa do Brasil de 2003. Seria o jogo da volta na disputa entre os dois clubes, com o Inter precisando reverter uma vantagem do Remo, que havia vencido o jogo de ida em Belém por 1x0. Se não me engano vi o comercial em um domingo e o jogo seria na quarta-feira à noite. Olhei para o meu pai e ele topou quase imediatamente.

Quando chegou o dia, lamentei não ter uma camisa do time para poder ir ao estádio. Mas coloquei uma camiseta preta comum e, junto com meu pai, saí de casa rumo ao Gigante da Beira-Rio (aliás, nessa época eu já gostava demais de poder chamar o estádio de Gigante). Chegamos lá depois de dois ônibus e uma breve caminhada, sendo que esta última parte do trajeto já fez eu ir curtindo aquele ambiente do jogo, vendo várias e várias pessoas de vermelho e branco indo para o mesmo lugar que eu e com o mesmo propósito. Na bilheteria meu pai comprou seu ingresso, momento no qual pude apreciar um pouco a vantagem de ser criança: eu entrava de graça.

Com ingresso da arquibancada inferior comprado, finalmente entramos no estádio. Foi então que, após a bela expectativa criada pela escada que dá acesso a arquibancada, me vi diante do campo e de toda a torcida, uma imagem que me encantou bastante. Até hoje, subir as escadas e dar de cara com isso é o meu momento favorito de ir ao Beira-Rio. Eu e meu pai nos ajeitamos no concreto da arquibancada enquanto mais torcedores chegavam e preenchiam os espaços do estádio. Nesse meio tempo, estava rolando um jogo no campo. Se bem entendi, o Inter permitia que torcedores marcassem uma partida amistosa antes do evento principal, algo que não se vê mais hoje em dia. E era divertido ver “pessoas comuns” se aventurando naquele gramado.

Terminado isso veio a hora do jogo e aos poucos me vi aprendendo a torcer. Sem nunca ter estado naquele ambiente, eu praticamente fui apenas imitando as coisas que eu via ao meu redor. Sendo assim, quando as escalações apareceram, aplaudi cada nome colorado que foi anunciado nos autofalantes do estádio e vaiei (timidamente) os nomes do time adversário. Durante a partida, me mantinha sentado durante lances desinteressantes, mas vi que podia me levantar quando havia uma chance de gol. Quando Daniel Carvalho pegava na bola e partia para o ataque, eu falava “Vai, Daniel! Vai, Daniel!” da mesma forma que um torcedor que estava próximo de mim falava, até porque Daniel Carvalho era o único jogador do Inter que eu sabia dizer quem era naquele momento. E pontualmente eu olhava para trás, já que acabei ficando preocupado após meu pai falar que torcedores têm o hábito de jogar copos de xixi nas pessoas que se encontram em pé mais à frente (até hoje nunca vi isso acontecer, mas era bom se precaver).

Já a partida em si eu lembro de ter gostado. Não foi um jogo chato de assistir, já que valia uma classificação para a fase seguinte da competição. Aos 27 minutos do primeiro tempo, o atacante André abriu o placar para o Inter. Mas aos 3 minutos do segundo tempo, Ivan empatou para o Remo, complicando mais a vida colorada. Ficamos na frente do placar novamente quando o zagueiro Sangaletti ganhou uma disputa com os defensores adversários, aos 19 minutos. Depois disso, vimos todas as grandes chances que criávamos pararem nas mãos do goleiro Ivair, que virou um paredão embaixo das traves (ao longo dos anos pude notar que isso acontece bastante com goleiros adversários no Beira-Rio). O jogo acabou 2x1. No placar agregado, 2x2, mas o gol feito fora de casa deu a classificação ao Remo.


A partida ocorreu no dia 26 de março de 2003. Ou seja, fazem exatos 18 anos que uma noite frustrante para o clube ainda assim foi empolgante para uma criança que fazia sua primeira excursão pelo Beira-Rio. Desde então, trocar de clube do coração nunca mais surgiu como opção. Sinto orgulho nas conquistas e tristeza nas derrotas, seja com os ouvidos grudados em um radinho, com os olhos atentos a uma televisão ou marcando presença no Gigante. E como diria um cântico da torcida: não importa o que digam sobre o Inter, sempre o levarei comigo.

terça-feira, 23 de março de 2021

Passeando por Bento usando o Google Maps

Frequentemente acho engraçado como minha cabeça funciona para guardar algumas informações e momentos completamente inúteis, enquanto outras mais importantes ou ficam meio de lado ou se perdem como lágrimas na chuva, como diria o replicante Roy Batty em Blade Runner. Mas recentemente me peguei diante de uma lembrança curiosa dos tempos em que morei na cidade de Bento Gonçalves e que não sabia que ainda estava guardada na minha caixola. Uma lembrança que pode ser resumida simplesmente a trajetos.

Morei em Bento Gonçalves por quase três anos, de 2000 até o finalzinho de 2002. A razão foi porque meu pai aviador conseguiu um emprego como piloto na cidade interiorana. Sendo eu apenas uma criança, foi uma mudança de ares triste inicialmente, já que deixei para trás amigos com quem eu estava crescendo quase como unha e carne e fui para um lugar completamente diferente, que eu nunca tinha ouvido falar e no qual não conhecia ninguém. No fim a tristeza foi bastante em vão, considerando que o período em Bento Gonçalves foi bem divertido e lembro dele de maneira bastante calorosa.

Mas, infelizmente, depois que voltei para Porto Alegre nunca mais coloquei meus pés em Bento Gonçalves. Não por falta de vontade, mas porque a vida simplesmente acontece e ao longo dos últimos 18 anos não tive uma oportunidade de voltar para lá e turistar um pouco. Dias atrás, porém, eu estava deitado em minha cama tentando pegar no sono quando comecei a me perguntar sobre lugares que frequentei na cidade. E foi então que acabei fazendo uma viagem usando o Google Maps.

A primeira pergunta que me fiz foi “Será que a locadora onde eu ia ainda existe?”. Tal locadora, como vim a lembrar pelas pesquisas, se chamava Solar Games e ficava na Galeria Solar, próxima do Colégio Aparecida, onde eu estudava. Era ali que eu costumava não só alugar filmes e jogos para passar o fim de semana, mas também ir jogar videogame por uma ou duas horas de vez em quando. Pois bem, infelizmente não consegui descobrir se a locadora ainda existe, até porque o Google Maps não permite entrar nos lugares. Mas suponho que ela tenha tido o mesmo destino da maioria das locadoras nos últimos anos, já que não encontrei registro algum na internet.

Mas minha viagem não parou por aí. Depois de ficar diante da galeria resolvi ver como é a fachada do Colégio Aparecida. Desci pela Rua Ramiro Barcelos e logo fiquei diante da escola, que pelo que entendi construiu uma espécie de secretaria no lugar por onde os alunos costumavam entrar nos anos em que estudei lá, mudando a entrada principal para o estacionamento (colegas de Bento, se estiverem lendo isso, fiquem à vontade caso queiram explicar melhor o que mudou ao longo dos anos depois que fui embora).

No entanto, essa pequena brincadeira tomou um rumo inesperado quando me fiz uma pergunta mais específica: será que depois de quase 20 anos eu ainda sei o caminho da escola até o condomínio onde morei?

Aqui acho bom explicar um detalhe. Uma das vantagens que tive morando em Bento Gonçalves foi o fato de todas as andanças que fiz pela cidade terem sido a pé. Os lugares que frequentei ao longo daqueles anos não ficavam tão longe da minha casa, de forma que nunca precisei pegar um ônibus como normalmente me vejo fazendo aqui em Porto Alegre (digo “normalmente” porque já faz quase um ano que a pandemia faz eu evitar pegar transporte público). Sendo assim, eu fiz o caminho entre a minha casa (na Rua Góes Monteiro) e a escola (na Ramiro Barcelos) centenas de vezes ao longo de quase três anos. Mas mesmo assim fiquei em dúvida se eu ainda saberia esse caminho, o que rendeu um desafio interessante.

Dessa forma, saí do Aparecida na Ramiro Barcelos e dobrei a esquerda na Avenida Júlio de Castilhos. E segui reto por um bom tempo, até chegar a Igreja Metodista. Eu sabia que indo um pouco mais adiante eu encontraria o supermercado Apolo, que tanto frequentei com a família. Eu imaginei que alguma outra rede de supermercados poderia ter assumido o lugar do Apolo, mas ele se manteve firme ali ao longo desses anos. Chegando ali, eu ainda sabia que, se eu subisse a Rua Cavalheiro Horácio Mônaco, estaria a meio caminho de casa.

Porém, ao final da quadra me vi quase diante de uma encruzilhada. Eu sabia que deveria dobrar a esquerda, mas não lembrava se deveria ir pela rua de baixo ou pela rua de cima. Num pequeno chute, optei por ir por esta última. Entrando ali, segui reto até ver se encontrava algum prédio cinza que tivesse algumas lojas ao redor e um piso de tijolos na entrada.

Notei estar no caminho certo quando passei diante de um posto Ipiranga, que talvez seja a única referência que lembro dentre todas as coisas próximas da minha casa. Inclusive, lembro que meu pai tentou me ensinar a andar de bicicleta em uma área do posto (infelizmente acabei desistindo de aprender depois de uma queda feia). E eis que andando mais um pouco encontrei o edifício, que ainda estava com o mesmo piso de tijolos escuros ao redor, mas agora contava com um portão branco na entrada (pelo que lembro, o portão nos meus tempos era preto).

No entanto, comecei a ter dúvidas se era mesmo o lugar certo, já que eu estava na Rua Saldanha Marinho e não na Góes Monteiro. Olhando o mapa, vi que a Góes Monteiro era a rua que ficava atrás do edifício. “Será que a prefeitura trocou as ruas de lugar?”, pensei. Um pensamento que talvez não tenha muito sentido, mas peço que me deem um desconto porque era madrugada e o sono estava chegando. Foi então que lembrei que estava tudo certo. A Góes Monteiro era a rua do estacionamento do prédio, enquanto que a entrada principal ficava mesmo na Saldanha Marinho. Como os carteiros não se confundiam para encontrar as caixinhas de correspondência dos moradores é algo que ficarei me perguntando.

O desafio foi concluído com sucesso. Aparentemente, é difícil esquecer um caminho feito tantas vezes. Mas o que foi legal nesse pequeno passeio não foi provar que minha memória continua relativamente boa, e sim lembrar de um período divertido em uma cidade que me deu boas lembranças. Quem sabe depois da pandemia ocorra de fazer uma visita pessoalmente? O futuro dirá.

sábado, 20 de março de 2021

Versos de Atenção


Férias tão necessárias me levaram a um lugar
Onde mistérios, diversão e
Risos me 
Aguardavam

Bebi umas e
Outras quando ninguém estava vendo e, de tão maluco,
Lambi o corrimão da escada
Só faltou vomitar na piscina enquanto os
Outros ali 
Nadavam
Após o sol raiar
Rumei em direção ao
Oeste, lugar pouco frequentado, quase deserto

Graças a um andarilho
Encontrei o que eu almejava
Nada muito gratificante, mas
Os meus antepassados muito agraciaram
Com certeza você está lendo
Isso e notando que nada aqui faz muito sentido
De forma que pergunto: você prestou bastante
Atenção no que aqui está escrito?

segunda-feira, 1 de março de 2021

Viagem Universitária


Nem sempre lembro de datas importantes na minha vida. Ano passado até cheguei perto de esquecer de meu aniversário. Mas quando lembro de pequenos momentos históricos, geralmente eles representam o início de alguma etapa que veio a ser parte integral de quem eu sou. Hoje, por exemplo, me ocorreu que há exatos dez anos eu pegava um ônibus em Porto Alegre e ia até Canoas, na Região Metropolitana, a fim de ter a minha primeira aula na faculdade.

Como falei neste espaço em outras ocasiões, cursei Produção Audiovisual na ULBRA, tendo me formado em 2015. Ironicamente, a primeira aula que tive pouco teve a ver com cinema ou televisão, já que era uma disciplina de marketing (uma das cadeiras obrigatórias da universidade). De qualquer forma, considerando o nervosismo e as dúvidas quanto ao que aquele local estaria me reservando nos anos seguintes, aquela aula serviu quase como arrancar o band-aid de uma vez só, me deixando relativamente confortável com aquele ambiente universitário.

Eu não fazia ideia, mas a partir daquele dia eu iniciava uma etapa que, mesmo repleta de altos e baixos, veio a contribuir muito com minha formação como ser humano. Ao longo de todo o curso, conheci uma gama de pessoas que ocupam um espaço especial em minha vida até hoje, desde colegas até professores (como de costume não citarei nomes, mas elas sabem quem são). Graças a essas pessoas, essa viagem universitária rendeu (e ainda rende) memórias divertidas, parcerias profissionais e ótimas piadas internas.

Para ilustrar um pouco as experiências que tive na ULBRA, coloco aqui uns trabalhinhos que fiz ou sozinho (a animação em stop motion) ou com meus colegas (os três vídeos restantes) e que encontrei no meio das bagunças da minha casa. Talvez eu deixe amigos embaraçados por compartilhar essas coisas, mas ninguém mandou eles me deixarem com cópias desses trabalhos.

O primeiro curta-metragem:



Stop motion com Max Steel:



Alerta para salas de cinema:



Pequeno tributo a Breaking Bad:

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

A Dança Pelo Brasileirão: O Final


Chegou ao fim o Campeonato Brasileiro 2020, o que faz com que eu sinta a necessidade de complementar o pequeno conto que escrevi ao final do primeiro turno da competição. Lembrando que na história os clubes são representados por seus mascotes em uma disputa na pista de dança.

***************************************

Logo após a 20ª rodada da competição, o Saci (Internacional) escorrega e vai ao chão, enquanto que o Urubu (Flamengo) tropeça nas próprias pernas. Santo Paulo (São Paulo), que dançava e observava a cena a alguns metros de distância ao lado de Guerreirinho (Fluminense) e Peixe (Santos), aproveita a situação e passa a dominar a pista.

“Eu falei que eles iam se enrolar sozinhos”, grita Santo Paulo.

Apesar da falha, o Urubu ainda consegue se levantar com certa rapidez, mantendo seu ritmo na pista aos trancos e barrancos. Mas o mesmo não pode ser dito sobre o Saci, que se encontra atordoado e emocionalmente abalado. A situação chega a ser desesperadora. Na preferência dos jurados que estão distribuindo as notas para cada competidor, Saci chega a ser ultrapassado por Galo (Atlético-MG), Guerreirinho, Porco (Palmeiras) e Peixe, de forma que a disputa parece ter acabado para ele. Até mesmo seu grande rival, o Mosqueteiro Gaúcho (Grêmio), parece estar mais disposto a dançar.

Enquanto isso, nos cantos da pista, ocorre uma briga para ver quem dança pior na competição. Uma disputa centrada em Periquito (Goiás), Almirante (Vasco), Super-Homem Tricolor (Bahia), Vovô Coxa (Coritiba), Leão do Recife (Sport) e Manequinho (Botafogo). O Leão Massa Bruta (Bragantino) até parecia querer entrar na briga com eles. Mas, após beber um bom energético, ele ganha um gás impressionante e passa a fazer movimentos que deixam os juízes de cabelo em pé. Mesmo não chegando ao centro da pista para se destacar em toda sua plenitude, Massa Bruta passa a ter seu estilo e seu ritmo admirados por todos, fazendo adversários teoricamente melhores terem que se superar para impedi-lo de roubar a cena, sendo que alguns falham nisso miseravelmente.

“Imaginem se ele tivesse dançado assim desde o início”, diz um dos membros do júri para seus colegas.

Vendo que sua dança está bem melhor que a de seus adversários, Santo Paulo resolve fazer uma pausa para ir ao banheiro. Lá ele até encontra o Manequinho em um dos mictórios. Aliás, Manequinho não sabia naquela hora, mas perderia tempo demais naquele local, de tão carregada que estava sua bexiga, o que o faria ficar atrás de todos seus adversários de maneira irrecuperável.

É então que, para a surpresa de todos, o Saci finalmente se recupera de sua crise emocional e passa a fazer alguns dos melhores passos da competição, chegando a parecer imbatível. Ele até volta para o centro da pista para disputar a preferência dos jurados. Quando Santo Paulo finalmente retorna de sua pausa, ele mal parece acreditar que está no centro da pista ao lado de um adversário que parecia ter desistido. Sua incredulidade é tanta que ele acaba sendo humilhado pelos passos do Saci, que domina com estilo surpreendente aquela pista, enquanto Urubu e Galo se esforçam para superá-lo.

E assim as coisas permanecem durante algumas boas rodadas e tudo dá a entender que ninguém conseguirá tirar o posto do Saci. Galo e Santo Paulo falham demais em seus passos e ficam pelo caminho. Mesmo se fizessem a dança de suas vidas não conseguiriam conquistar os jurados, que passam a focar apenas no Saci e no Urubu.

No entanto, chegando mais perto do final da competição, logo quando as coisas parecem estar se definindo, o Saci fica sem energias. Seu emocional parece ser derrotado pelo cansaço. Até mesmo o Leão do Recife chega a superá-lo em uma pequena briga em determinado momento. Enquanto isso, o Urubu parece ainda ter um pouco de gasolina em seu tanque, engrenando seus passos e finalmente pegando o centro da pista só para si.

Mas em uma competição dominada pela irregularidade, com participantes que constantemente parecem não ter forças suficientes ou simplesmente não estão muito a fim de ganhar, até o próprio Urubu chega ao final entregando os pontos. Ele olha imediatamente para o Saci, o único adversário ainda capaz de roubar seu posto na pista e vencer de vez a disputa.

“Acho que essa competição é sua, Saci. Aproveite!” – diz o Urubu, que de tão cansado quase não respira direito.

Para sua sorte, porém, o Saci não consegue mais dançar.

“Não tenho mais forças” – diz o Saci.

Neste momento os jurados acionam o alarme, marcando o fim da competição.

Eles correm para o centro da pista e encontram os participantes exauridos. Mas mesmo tontos após 38 rodadas de dança, quase todos os competidores reclamam que seus adversários foram favorecidos em determinados momentos da competição e que esta acabou não sendo justa. Mas para os jurados isso pouco importa e eles sagram um exausto Urubu como campeão de dança pela segunda vez consecutiva. Ao Saci, resta a frustração de quem teve a chance de vencer, mas não aproveitou. Já para Periquito, Almirante, Vovô Coxa e Manequinho, resta a lamentação de quem dançou tão mal que acabou fora da pista.

Mas todos sabem de uma coisa: na temporada seguinte haverá mais dança e, certamente, eles terão que evoluir para ter uma participação melhor.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

O Fruto Não Cai Muito Longe do Pé

Eu acho que tinha uns 12 ou 13 anos. Juventude e Inter se enfrentavam no estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul. Eu assistia a partida pela televisão junto com meu pai, como de costume. Devia ser um jogo válido pelo Campeonato Gaúcho, mas para falar a verdade não lembro exatamente qual era a competição. Nessa época, quando eu ainda estava iniciando meus passos como torcedor, havia algo na forma como meu pai torcia que me incomodava. Ele gritava, xingava, esperneava, reclamava de tudo. Se irritava com nossos jogadores e com a arbitragem, não importava o tamanho do jogo ou a competição. Nessa partida em específico, eu não aguentei muito aquela forma de torcer. Quando reclamei, meu pai retrucou veementemente dizendo que aquela era a forma de se torcer. Ainda assim não gostei, e preferi ir para o quarto.

Corta para 2021.

O Inter enfrenta o São Paulo no estádio Morumbi. Mais uma vez, eu e meu pai estamos em frente a televisão, sintonizados na partida. Inicialmente, eu estou nervoso e ele bastante tranquilo, já que absorveu a confiança do time logo nos primeiros minutos. Ao final da partida, estamos ambos radiantes e incrédulos diante da vitória acachapante do Inter: 5x1 com direito a hat-trick do jovem Yuri Alberto e liderança do Campeonato Brasileiro retomada. Mas durante a partida não pude evitar de lembrar daquela ocasião de 15 anos atrás. Afinal, durante o jogo eu e meu pai gritamos, xingamos, esperneamos, reclamamos. Vibramos com cada gol como se a nossa sala fosse o próprio Beira-Rio. Sim, eu fiz tudo isso junto com ele. Aparentemente, o fruto não cai muito longe do pé mesmo.

Se o Inter conseguirá se manter na liderança é algo que ainda vamos ver. Mas de qualquer forma agradeço pelo resultado histórico e pela memória.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020: O Ano Que Inexistiu

"Há um ano recebíamos o convite

O convite para 2020

Mas um ano após ter aceitado tal convite

Creio que qualquer um admite

Que imaginava qualquer coisa para 2020

Menos que ele fosse ser um inferno sem limites"

Eu pensei em falar de 2020 através de um poema, mas meu estoque de criatividade não é grande a esse ponto. Os versos acima foram os únicos que consegui bolar. Gostaria de poder chegar aqui hoje e dizer que esse foi um ótimo ano, repleto de realizações e de experiências ricas, mas isso seria papo furado. Afinal, ao menos pra quem vive no mundo real, não foi possível viver 2020. Ao invés disso, foi necessário ficar trancado dentro de casa pela maior parte do tempo e mantendo contato à distância com familiares e amigos. Essencialmente, 2020 acabou em março.

Desde então o tempo parece brincar com nossas percepções (janeiro e fevereiro parecem ter acontecido há anos) enquanto que todo dia se mostrou um novo dia para ficar indignado e triste com notícias na TV ou na internet.

Mas por mais que eu fique reclamando de 2020, é claro que ele não teve culpa de nada disso. As pessoas é que vão formando a maneira como um ano será lembrado. 2020 apenas deu azar que muitas pessoas parecem ter decidido de vez por se deixarem levar pela falta de noção, pela ignorância e pelo ódio. E quando isso não nos indignava, havia outras coisas para nos abater (a morte do lendário Ennio Morricone, particularmente, foi um grande soco no estômago).

Mas mesmo diante de um ano caótico em que não foi possível fazer muitas coisas, eu ainda sinto que preciso agradecer. No caso, agradecer as pessoas que tenho ao meu redor, sejam elas família ou amigos, já que foram elas (e meu antidepressivo) que ajudaram a fazer com que os eventos de 2020 fossem suportáveis. A família pode sim dar uma boa dose de dor de cabeça, mas são pessoas que me dão uma base primordial, ao passo que os amigos não só estiveram sempre presentes através do famoso "zapzap", mas também conseguiram fazer com que eu me acostumasse e gostasse das tais chamadas de vídeo (até então, eu as odiava pelo simples fato de não curtir ver a minha cara no canto da tela).

Com exceção de alguns momentos prazerosos, como a vitória de Parasita no Oscar e a derrota de Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos, 2020 infelizmente será lembrado por mim quase como um vazio. O começo de 2021 não parece ser tão promissor, mas deixo aqui a torcida para que possamos formar um ano mais digno.

Desejo a todos um Feliz Ano Novo!